4.10.08

Viver

Era a Aldeia mais longe daquele Mundo, mais triste de felicidade, era a Aldeia mais distante da realidade.
Nas ruas não havia sons, movimento, nem havia encanto. As paredes das casas eram brancas demais, limpas demais e intocáveis demais.
Qualquer um se sentiria perdido na imensidão daquele tão pequeno mundo. Qualquer um quereria fugir daquela confusão silenciosa e inexistente. O silêncio que pairava sufocava aquelas paredes tristes de vida.
Só três viúvas habitavam aquele silêncio, apenas três mulheres despidas de cor e de luz suportavam o pesado ambiente da Aldeia do fim do mundo. Choravam noite e dia. A sua dor consumia aos poucos a já tão fraca luz de vida, que as pessoas habitualmente chamam de esperança. E foi quando, no mais profundo do meu íntimo contemplei aquele viver, que pude perceber o que é morrer sem realmente adormecer no sono eterno que nos persegue. O verdadeiro problema não é o de saber se viveremos depois da morte, mas o de sabermos se estamos vivos antes de morrer. Quando percebi isto, quis acordá-las daquele sonho quase inalcansável, marcado pelo tempo que não se apaga nem volta atrás, lembrá-las que ainda há uma vida a querer nascer. Mas era tarde, fui acordada deste maravilhoso sonho que, ali em poucos segundos, me abriu o Passado, o Presente e, sobretudo, mostrou-me que há um Futuro, ainda que efémero. Quis viver e nada mais.

A vida acontece

O Sol nasce, o mundo avança
E se escurece, vai-se a esperança

O Sol põe-se, o mundo sonha
Que o amanhã a luz reponha

Se não amanhece, o mundo estremece
Se a cor aparece, a vida acontece...

Agora

Não sei se amanhã vou cá estar
Nem sei se vou sorrir
Quem sabe se vou cair
Quem sabe se vou partir

Só sei que hoje quero tentar
Quero experimentar a vida
Sentir o mal p’ra conhecer o bem
Tropeçar e precisar de algém

Basta um dia, basta o agora
Basta a vida que não demora.